Jovem português começa a ser julgado por instigar massacres em escolas no Brasil e liderar rede de violência online


Começou hoje, no Tribunal da Feira, no distrito de Aveiro, o julgamento de um jovem português acusado de instigar múltiplos massacres em escolas brasileiras através da plataforma Discord. O arguido, que se encontra em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Leiria desde maio de 2024, enfrenta mais de 250 acusações criminais, incluindo a instigação do homicídio de uma adolescente de 17 anos durante o trágico Massacre de Sapopemba, em São Paulo.

O Ministério Público (MP) acusa o jovem, que operava sob pseudónimos como “Mikazz” e “Gotter”, de criar e liderar uma comunidade online denominada “The Kiss”. A partir do seu quarto em Santa Maria da Feira, o arguido terá manipulado e recrutado adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional — muitos deles vítimas de bullying —, incitando-os à prática de atos de extrema violência para obterem aprovação e subirem na hierarquia do grupo.

De acordo com a acusação, a violência escalonava desde transmissões em direto de automutilações e tortura de animais de companhia, até à instigação de tiroteios em escolas. O caso mais grave consumou-se a 23 de outubro de 2023, quando um jovem brasileiro de 16 anos, alegadamente orientado e encorajado pelo português, assassinou uma colega e feriu outros três estudantes. As autoridades conseguiram, no entanto, travar outros três ataques a escolas planeados por jovens entre os 12 e os 14 anos, bem como o homicídio premeditado de um sem-abrigo, que o arguido pretendia transmitir em direto mediante o pagamento de uma taxa pelos espectadores.

Além da instigação a homicídios (um consumado e seis tentados), o vasto leque de crimes inclui associação criminosa, incitamento ao suicídio, coação agravada, maus-tratos a animais e incitamento ao ódio e à violência, refletido na partilha de propaganda nazi, racista e homofóbica. O jovem responde ainda por 224 crimes de pornografia de menores, material que alegadamente comercializava e utilizava para chantagear jovens raparigas do grupo.

A defesa do arguido, representada pelo advogado Carlos Duarte, argumenta que o mediatismo do caso resultou num processo “empolado” e que o jovem está a ser utilizado pelas autoridades como um “exemplo”. A defesa contesta o papel de liderança absoluta do arguido, descrevendo-o como um jovem normal com uma participação mais passiva na comunidade.

As perícias psiquiátricas realizadas não detetaram qualquer doença mental ou anomalia psíquica no jovem. Contudo, os especialistas sublinharam a presença de traços disfuncionais de personalidade, marcados por um profundo distanciamento afetivo, ausência de empatia e banalização das próprias ações.

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